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Notícias

01 / Novembro / 2010

Mensagem Pastoral: Cristo, a paz que incomoda

Pastor Presidente: Wander Ferreira Gomes

Quando criança, ouvi um testemunho que me chamou a atenção. Tratava-se de um rapaz que compartilhando do seu momento de conversão disse o seguinte: “Depois que aceitei a Cristo, sinto uma paz tão profunda, que o mundo pode explodir ao meu redor que eu não me incomodo.” Hoje, fazendo uma releitura dessa fala, a única coisa que me vem à mente e fica martelando de forma ensurdecedora em meus ouvidos é a clássica frase de Karl Marx: “A religião é o ópio do povo.”

Quantas vezes o cristianismo tem disseminado uma paz alienadora, que na prática em nada difere dos efeitos causados por qualquer entorpecente. Uma paz que nos tira do contato com a realidade. O texto do evangelho de João 14.27 diz: “A minha paz lhes dou. Não a dou como o mundo a dá. Não se perturbe o seu coração, nem tenham medo.” A primeira coisa bastante nítida no texto é que a paz de Cristo é diferente. O que os discípulos entendiam por paz, e que o mundo hoje também entende, é que paz significa ausência de conflito. Vemos constantemente na mídia o pedido por “Paz no Oriente Médio!” Em outras palavras: “Acabem com os conflitos no Oriente Médio!”.

Também podemos definir paz em um sentido mais espiritual, como sendo um estado de bem-estar. Mesmo quando não existe bem-estar, esse sentido religioso de paz denota um estado de espírito que ignora a realidade e simula um bem-estar artificial. E, nesse sentido, devemos concordar com Freud que diz que a religião é um artifício infantil do homem para fugir da realidade.

Shalom, a paz de Jesus, é muito mais do que ausência de conflito ou um bem-estar incondicional. Talvez o texto do Novo Testamento que melhor defina o sentido de shalom seja: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância.” A shalom de Deus significa vida plena. E aqui não se entende vida plena como uma vida repleta de bens materiais, mas sim como uma vida repleta de um bom convívio interpessoal onde não haja injustiça e todos tenham o necessário para viver. Nas palavras do salmista: “Amor e fidelidade se beijam. Paz e justiça se abraçam.” Paz e justiça são duas coisas indissociáveis. Não pode existir paz onde existe injustiça. E em um mundo tão cheio de injustiças, onde as pessoas são privadas de sequer sonhar com uma vida plena, a paz de Cristo não pode nos trazer outra coisa que não seja um incômodo profundo. E por isso que a paz de Cristo é diferente, ela não traz conformismo, mas, sim, indignação.

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